A história do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) se confunde com a história do Brasil. Da escolta da Família Real às missões de paz no Haiti e no Líbano, a tropa anfíbia da Marinha esteve presente em praticamente todos os momentos decisivos da formação do país.
Origens: do Terço da Armada à Brigada Real da Marinha

Os antecedentes dos Fuzileiros Navais remontam ao Terço da Armada da Coroa de Portugal, criado em 1618 para proteger a navegação contra corsários, operar a artilharia das naus e realizar abordagens. O batismo de fogo do Terço veio em 1625, na chamada Jornada dos Vassalos: uma operação anfíbia e expedicionária que expulsou os holandeses de Salvador.
A Rainha D. Maria I criou a Brigada Real da Marinha por meio do alvará de 28 de agosto de 1797, em substituição ao Terço. O documento original está arquivado na Torre do Tombo, em Lisboa, e o Museu do CFN guarda uma cópia fotográfica. A Brigada reunia três divisões:
- Artilheiros-Marinheiros: guarneciam a artilharia de bordo, os fortes e os paióis de pólvora.
- Fuzileiros-Marinheiros: realizavam desembarques e defendiam os navios nas abordagens.
- Artífices e Lastradores-Marinheiros: trabalhavam a bordo e nos arsenais.
Nascia ali a vocação anfíbia que define o CFN até hoje: combatentes preparados tanto para o mar quanto para a terra.
7 de março de 1808: a chegada da Família Real

Napoleão decretou o Bloqueio Continental contra a Inglaterra em 1806 e passou a pressionar Portugal. Diante da iminente invasão francesa, o Príncipe Regente D. João transferiu a Corte para o Brasil, sob escolta da esquadra inglesa. A segurança da Família Real a bordo coube à Brigada Real da Marinha, a tropa de elite de Portugal.
Depois de uma escala em Salvador, a comitiva chegou ao Rio de Janeiro em 7 de março de 1808. O desembarque, no dia seguinte, foi celebrado com festas, e a Brigada desfilou pela cidade com sua banda à frente. A data é o marco zero e o aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais: o Dia do Fuzileiro Naval.
A conquista de Caiena: o batismo de fogo

Em resposta à invasão de Portugal, D. João declarou guerra à França e ordenou a conquista da Guiana Francesa. Os Fuzileiros-Marinheiros embarcaram no Rio de Janeiro em novembro de 1808. A tropa tomou os fortes do rio Aproak entre dezembro de 1808 e janeiro de 1809, desembarcou e cercou Caiena, que capitulou em 12 de janeiro de 1809.
A conquista impediu o uso daquelas terras como base contra o Brasil e ajudou a fixar a fronteira do Oiapoque. Da Guiana vieram ainda mudas de especiarias e frutas que enriqueceram a agricultura brasileira. D. João mandou cunhar uma medalha de prata comemorativa da vitória.
De volta ao Rio, a Brigada foi instalada na Fortaleza de São José da Ilha das Cobras em 21 de março de 1809, por ordem do Ministro da Marinha, o Conde de Anadia. Ali permanece até hoje. Quando D. João VI voltou a Portugal, em 1821, um Batalhão de Fuzileiros-Marinheiros ficou no Rio de Janeiro.
As três fases da história do CFN

Artilharia da Marinha (1808 a 1847). Os Fuzileiros guarneciam os canhões dos navios e eram os únicos militares profissionais de carreira a bordo. Lutaram em Caiena, nas guerras pela consolidação da Independência, na pacificação das províncias e na Guerra da Cisplatina.
Infantaria da Marinha (1847 a 1932). Com a criação do Corpo de Imperiais Marinheiros, os Fuzileiros passaram a atuar sobretudo como infantaria, em abordagens, na defesa dos navios e em desembarques. Combateram nas campanhas contra Oribe e Rosas, contra Aguirre e na Guerra do Paraguai. Na tomada de Paissandu, em 1864, destacou-se o 2º Sargento Francisco Borges de Souza, no episódio conhecido como "Tomada do Forte Sebastopol". Na Guerra da Tríplice Aliança, 1.428 das 1.845 praças do Batalhão Naval estavam embarcadas nas operações no Prata.
Corpo de Fuzileiros Navais (a partir de 1932). A denominação atual substituiu "Regimento Naval" e inaugurou uma fase de expansão e modernização:
- a formação dos primeiros oficiais Fuzileiros Navais na Escola Naval;
- o desenvolvimento das Operações Anfíbias após a Segunda Guerra Mundial;
- a criação dos centros de instrução e de novas áreas de adestramento;
- a elevação do Comandante-Geral a Almirante de Esquadra, com quatro estrelas, na gestão do Ministro Maximiano.
Almirante Sylvio de Camargo, o Patrono

Sylvio de Camargo nasceu em Santa Rita do Sapucaí (MG), em 16 de fevereiro de 1902, e ingressou na Escola Naval em 1919. Promovido a Contra-Almirante, assumiu o Comando-Geral do CFN em 1945 e o exerceu até 1956. Foi o ponto de virada da corporação: rompeu com o paradigma das operações terrestres e consolidou a formação específica em Operações Anfíbias. Construiu o Centro de Instrução da Ilha do Governador, que hoje leva seu nome: Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC). Foi instituído Patrono do CFN em 26 de fevereiro de 2009.
O retrato do Patrono está no Salão Sebastopol, que faz parte de todas as visitas. Agende a sua
Missões de paz e presença internacional
A tradição do CFN em operações de paz começou em 1965, na República Dominicana, sob a bandeira da Organização dos Estados Americanos (OEA). Sob a Organização das Nações Unidas (ONU), os Fuzileiros Navais passaram a atuar a partir de 1989 em Angola, Honduras, El Salvador, Moçambique, na antiga Iugoslávia, Uganda, Ruanda, Macedônia, Eslavônia Oriental, Croácia, Costa Rica, Nicarágua, Timor-Leste, Costa do Marfim, Libéria, Nepal, Haiti e Líbano.
- Missão de Paz no Haiti (MINUSTAH, 2004 a 2017): cerca de 700 oficiais e 5.400 praças participaram. Foi o maior engajamento militar brasileiro no exterior desde a Segunda Guerra Mundial.
- Líbano (UNIFIL, a partir de 2011): Fuzileiros Navais integraram a Força-Tarefa Marítima comandada por almirantes brasileiros, na segurança do comandante.
- Colômbia (desde 2003): atuação na missão de desminagem humanitária.
- Chile (2010): apoio às vítimas do terremoto com o Hospital de Campanha da Marinha.
- Namíbia (desde 2009): apoio à criação do Corpo de Fuzileiros Navais daquele país, com mais de 1.400 militares formados ou aperfeiçoados.
- São Tomé e Príncipe (desde 2014): capacitação da unidade de Fuzileiros Navais da Guarda Costeira.
- Embaixadas: Fuzileiros Navais fazem a segurança das embaixadas do Brasil na Bolívia, no Haiti e no Paraguai.
Ao lado da sociedade brasileira
- Grandes eventos: atuação em Operações de Garantia da Lei e da Ordem na ECO-92, na Rio+20, na Jornada Mundial da Juventude, na Copa do Mundo de 2014, nos Jogos Rio 2016 e na Cúpula do G20, em 2024.
- Defesa Civil: apoio em calamidades desde a tragédia da Região Serrana (2011), com destaque para a Operação Taquari II, no Rio Grande do Sul, em 2024.
- Pronta resposta: a Força de Resposta Imediata a Desastres Ambientais (FRIDA) foi criada em 2025.
- Defesa NBQR: proteção contra ameaças nucleares, biológicas, químicas e radiológicas, incluindo a segurança do Programa Nuclear Brasileiro.
O CFN hoje

O CFN passou por uma ampla reestruturação a partir de 2024 e hoje está organizado em cinco Brigadas e quatro vertentes de atuação:
- Anfíbia: a essência histórica, de projeção de poder do mar para a terra.
- Litorânea: defesa da costa brasileira e da Amazônia Azul.
- Ribeirinha: controle dos rios da Amazônia e do Pantanal.
- Proteção: segurança de instalações e infraestruturas críticas, incluindo a Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica.
É a única tropa das Forças Armadas brasileiras formada integralmente por militares profissionais. Todos são voluntários, aprovados em concurso público nacional. Quer fazer parte dessa história? Conheça a página Seja um Fuzileiro Naval.
ADSUMUS: aqui estamos

Honra, Competência, Determinação e Profissionalismo são os valores essenciais do Fuzileiro Naval. O lema ADSUMUS, "Aqui estamos!" em latim, traduz um sentimento de permanente prontidão. Nessa trajetória de mais de dois séculos, 1.622 Fuzileiros Navais deram a vida pelo Brasil. E, como se diz na tropa, "uma vez Fuzileiro Naval, sempre Fuzileiro Naval".